Sucesso com o passinho, grupo diz que dança foi passaporte para circular em favelas rivais

De passinho em passinho, eles chegaram lá. Nascidos em regiões pobres do Rio de Janeiro, os cinco integrantes desse Dream Team vêm saltando barreiras e transformando sonhos em realidade. Com
clipe novo na área, “Vai dar ruim”, dirigido por Lázaro Ramos, eles seguem fazendo shows, onde não mostram só a arte que os fez famosos, mas, cheios de atitude, rebatem preconceitos.
Dança virou passaporte para transitar em favelas de facções rivais
Na Olimpíada, Lellezinha, Rafael Mike e companhia estarão por trás do concurso Passinho de Ouro, que vai acontecer em Madureira durante os Jogos. Na cerimônia de encerramento da Paralímpica, no Maracanã, eles também estarão lá, levando esse passinho para o mundo.
“Sempre sonhei ser a pessoa que sou hoje, sempre quis ser uma artista. Mas para o pobre, negro e favelado, pode parecer um sonho impossível. Como a gente vai chegar à televisão, subir em cima de um palco? Era o que eu sempre me questionava”, diz Lellezinha. A única menina do grupo lembra o tempo em que desafiava a ordem da mãe para dançar com os meninos nos bailes funk das comunidades.
Grupo busca ser referência nas favelas ondem moram
Foi nesse período também, ali por volta de 2010 e 2011, que o passinho estourou e deixou de ser apenas um duelo entre dançarinos amadores de comunidades, muitas vezes de facções criminosas rivais.
“A dança acabou virando um passaporte para podermos transitar de uma favela para a outra. Eu, como morador do Complexo do Lins, não podia visitar o Pablinho que mora na Rocinha. Eram dois lugares com facções diferentes e tinha medo de ser morto”, conta Diogo Breguete.
Figurino afro, cabelo black power e discurso contundente no palco
Com o surgimento da Batalha do Passinho, com direito a documentário e concurso no “Caldeirão do Huck” (vencido por Hiltinho), cinco jovens foram reunidos no clipe “Aperte o play” para uma marca de refrigerante. O sucesso foi tão grande que, em 2013, ficou decidido que aquele quinteto viraria o Dream Team do Passinho.
De lá para cá, o grupo emplacou música em novela (O sucesso "De Ladin", em "A regra do jogo") e também ganhou em atitude. Figurino afro, cabelo black power e discurso contundente no palco. “Vivemos nesse país que é uma máquina de matar preto”, disse Rafael Mike, numa recente apresentação na Fundição Progresso.
“Somos muito preocupados com o que vivemos na realidade. Queremos ser uma referência para essa molecada. Na semana desse show, tive dois amigos de Nova Iguaçu assassinados. Perdi muitos assim na minha história”, diz o principal vocalista do grupo, que criou um código próprio para todas as vezes em que surge um atrito entre eles.
“Quando rola uma discussão, a gente começa a cantar a música: ‘deixa o coração ficar levinho, levinho...’, ensina (para o mundo) Breguete.
Musa do Dream Team, Lellezinha fez
Lellezinha é a musa do Dream Team. Hoje vive com a avó no Campinho, mas já morou na comunidade do Rio das Pedras. Tem 18 anos e duas novelas ("Malhação" e "Totalmente demais") no currículo. Virou porta-voz de uma marca de produtos de cabelo depois que assumiu o afro: “Virei uma referência maior na comunidade quando assumi meu black power. Digo que ganhei uma coroa e que ninguém mais mexe comigo”.
Rafael Mike, de Nova Iguaçu, é o mais velho e o principal vocalista masculino do grupo. Sempre viveu da dança: “Nossa vida é hoje o Dream Team. Estamos sempre juntos, ensaiamos duas vezes por semana, fazemos aulas de canto, dentista e até terapia”.
Hiltinho é o caçula entre os meninos desse time dos sonhos. Também é de Nova Iguaçu e tem apenas 19 anos. Dança tão bem que levou para casa o primeiro lugar da “Batalha do Passinho”, que aconteceu no palco do “Caldeirão”, há três anos: “Hoje concilio os compromissos com o grupo e meus estudos”.
Diogo Breguete tem 25 anos e é considerado o filósofo do grupo. Morador do Complexo do Lins, ele já trabalhou como auxiliar de serviço gerais e tem três filhos: “Desde pequeno eu danço”.
Pablinho é morador da Rocinha e tem 23 anos. Já foi fiscal de ponto de táxi e jardineiro em “casa de madame”, como ele mesmo diz. Começou a fazer passinho em 2005 e mostrava sua arte no Orkut: “Sou tipo uma relíquia, modéstia à parte”.

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