Marcelo Gularte nunca foi a um baile
funk.
Esta informação simples, no entanto, é a mais curiosa da biografia
deste carioca de Madureira, de 39 anos, que não pode reclamar de levar
uma vida ordinária.
Gularte é psicólogo, flautista (toca choro todo
sábado em Ipanema), dirige dois Pontos de
Cultura
em comunidades (um transforma lixo em instrumentos musicais, o outro
ensina cinema a adolescentes), fez o curta “MC Magalhães, uma lenda viva
do funk” e é autor de uma pesquisa sobre cultura popular tão vasta que
acaba de lhe render um Guinness — recordista em conhecimento de ditados
populares, Gularte é capaz de emendar um no outro durante seis horas sem
parar.
Mas é o fato de nunca ter pisado em um baile funk que mais chama a atenção. Gularte sabe
de cor
a história das equipes de som, dos gritos de galeras, conhece a autoria
das músicas e a trajetória de cada MC — como se frequentasse os eventos
desde sempre.
— Meu irmão ia a todos os bailes, sempre
fui mais do chorinho. Mas me apaixonei pela história do funk quando
comecei a pesquisar a cultura oral popular. Resgatar as lendas do funk é
valorizar a memória de gerações — diz Gularte, contemplado no último
Edital do Funk da Secretaria estadual de Cultura com o projeto
“Enciclopédia do funk”, livro que teve a ideia de editar durante uma
pesquisa sobre
o gênero musical que já fazia para o romance “A lenda do funk carioca”,
ambos com previsão de lançamento para 2015. — Um complementa o outro. A
enciclopédia vai sistematizar o funk em verbetes. O romance vai
amarrar, com personagens fictícios, as histórias reais que estou
levantando.
Às vésperas do Rio Parada Funk, evento que inclui o gênero no calendário oficial da cidade,
Gularte compila sete das muitas curiosidades reunidas em centenas de
entrevistas que fez com MCs, produtores, DJs, frequentadores, além de
ex-integrantes de turmas e galeras.
Uh, uh, vamo invadir!
A
história do grito que até hoje é usado em torcidas organizadas remonta à
origem dos “bailes de corredor”. Gularte explica que no início do funk,
nos anos 1980, os bailes eram marcados pelas “turmas”, como a do
bate-bola, do balão ou dos surfistas de trem; nos anos 1990, pelas
“galeras”. Havia as galeras “amigas” e “os alemão”. O “Uh, uh, vamo
invadir!” era um grito de guerra que uma galera entoava do lado de fora
do baile enquanto as rivais entravam. Os bailes de corredor surgem no
início dos anos 1990 justamente para amenizar esta rivalidade entre as
galeras, que dançavam em trenzinhos, chamados de “mulas” (vem daí a
expressão “mulão”). Como um mulão brigava com o outro, as galeras foram
divididas nos bailes: de um lado, ficavam as do “Lado A” (quem “fechava”
com algumas comunidades). Do outro, a galera do “Lado B”. No meio, o
corredor ficava livre.
Ah! Eu tô maluco!
Em 1997, conta Gularte, houve um baile da equipe de som
Pipo’s, no Portelão, em Madureira, com show do Movimento Funk Clube. Um
dos frequentadores, o camelô Jorge do Sapê, de 22 anos, foi instigado
pelos amigos a subir no palco com as dançarinas. Se tivesse coragem,
ganharia R$ 50. Se não subisse, iria para casa “só de cueca”. Jorge não
só subiu, como pegou o microfone e gritou: “Ah! Eu tô maluco!”. O grito
foi gravado e incluído na “Montagem do desesperado”, que virou um
sucesso, muito popularizada também pelo programa “TV Xuxa”. Jorginho do
Sapê tornou-se o MC Maluco e sua fama provocou uma batalha judicial: a
música de apenas um verso teve a autoria reclamada por mais de dez pessoas, que dividiram entre si os direitos autorais.
O funk e a boquinha da garrafa
Segundo
o pesquisador, foi a influência da axé music que erotizou as
coreografias do funk. Por volta de 1995, com o sucesso de hits como “Na
boquinha da garrafa”, alguns bailes passaram a incluir na programação
montagens que pediam passos ensaiados. O baile do Country Clube da Praça
Seca, diz ele, referência como “baile de corredor”, aos poucos foi
cedendo espaço para a nova vertente, que ficou mais forte
depois nos festivais do Baile do Coroado, na Cidade de Deus, onde
surgiu o Bonde do Vinho, o Bonde do Tigrão, a Tati Quebra-Barraco e
Deize Tigrona.
De Betinho a Ayrton Senna
Gularte afirma que “nenhum gênero musical
brasileiro homenageou tantas personalidades e episódios históricos como
o funk”. Em 1992, teve funk sobre a Eco 92, o massacre do Carandiru, o
desabamento da arquibancada do Maracanã; o “Rap da Daniela” homenageava a
atriz Daniela Perez; o “Rap do Curral Cavalo”, de 1994, era uma
homenagem ao sociólogo Betinho. No mesmo ano, Ayrton Senna seria
lembrado em três músicas.
‘Melô do tagarela’
Pouca gente sabe, mas o apresentador Luís Carlos Miele é o autor do que é considerado “o primeiro funk carioca”. Gularte explica que muitos funks eram feitos à época, tornando a discussão sobre
a primeira gravação infinita. Mas há um consenso entre pesquisadores de
que o “MC Miele” foi um marco. A “Melô do tagarela”, uma versão da
música “Rapper’s delight”, do Sugarhill & Gang, foi lançada em 1980
por ele num compact disc.
Diz um trecho da letra bem-humorada, mas repleta de críticas sociais:
“É sim, de morrer de rir/ Quando a gente leva a sério o que se passa por
aqui/ Saio com a menina, tá tão cara a gasolina, e levo um tiro na
esquina/ O povo esperançoso que só quer voto direto”.
Raio laser francês
A
rivalidade entre as equipes de som foi um fator importante no avanço do
aparato tecnológico dos bailes funk. Conta Gularte que em 1993 houve
uma aposta curiosa entre a Cash Box
e a Furacão 2000, rivais históricas nos festivais. Dono da Furacão
2000, Rômulo Costa garantiu que rasparia a barba se perdesse a disputa
de preferência do público, enquanto o dono da Cash Box disse que
cortaria o cabelo. No primeiro “duelo”, ganhou a Cash Box. No segundo, a
Furacão. O desempate foi no Maracanazinho, e cada equipe caprichou: a
Cash Box montou quatro painéis luminosos gigantescos com as capas dos
seus discos; a Furacão importou até raio laser da França para projetar
imagens do calçadão de Copacabana sobre o público, e ainda bolou um
efeito que deixou os frequentadores boquiabertos: projetou a imagem de
um cachorro comendo um coelho, que era o símbolo da equipe rival. Deu
empate.
Choque de monstro
A
maioria das gírias usadas pelos cariocas hoje em dia vem da cultura
funk, observa Gularte, que está esmiuçando cada uma tanto na
“Enciclopédia do funk” quanto no romance
“A lenda do funk carioca”. “Paredão”, por exemplo, era uma expressão já
usada nos anos 1980 (os frequentadores diziam ”tirar um rala no
paredão” para “dar uns beijos, ficar”). Nos anos 1990, a gíria ganhou
uma conotação mais sexualizada. Outra gíria que se adaptou foi “filé de
borboleta”, termo usado para identificar meninas muito magras. Nos anos
1990, virou só “filé”, e já não remetia à magreza. Pegar alguém no
flagra era “dar um Fla x Flu”, “choque de monstro” era algo legal, “no
pano” era arrumado, “formar o bonde” era sair... Além destas, muitas das
criadas nos anos 2000 já foram incorporadas ao vocabulário da cidade,
como “desenrolo”, “demorou” (do Rap do Borel), “mulão”, “popozuda”,
“tchutchuca”, “purpurinada”, “cachorra”, “preparada”, “desce do
palco”etc.
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