Com a recente (e polêmica) alcunha de pensadora contemporânea —
depois de se tornar tema de uma questão de prova escolar —, Valesca
Popozuda não se intimida com um livro sobre Aristóteles nas
mãos.
“Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue a sua alegria, a
sua paz, a sua vida, nas mãos de ninguém”, lê a rainha do funk, em voz
alta, ao abrir o exemplar numa página aleatória, enquanto faz cabelo e
maquiagem num salão na Barra.
— A mais pura verdade! — sentencia a
loura, de 35 anos, ao completar a leitura, finalizando com sua mais
famosa nota de rodapé, um beijinho no ombro.
Assim como seu ancestral grego, Valesca mantém intacto o seu Olimpo
sagrado: o baile funk. A cantora, que vem ganhando espaço nos bastidores
do mundo da moda, no movimento feminista e até no mundo acadêmico (como
objeto de estudo), continua circulando nas festas de funk e pagode pelo
Rio. Claro que, agora, entre uma viagem e outra de sua apertada agenda.
O Extra acompanhou na última segunda-feira, numa casa noturna em Campo
Grande. Nos corredores de parede chapiscada do backstage, desfila a
mesma Popozuda de sempre.
— Estou vivendo um momento bom. Amo o
que faço. Não chego num lugar e falo “Dá licença que eu sou a Valesca”.
Estou só fazendo o meu trabalho. Não vou deixar de ser funkeira, e não
vou mudar nada para que me aceitem — sinaliza a recente diva ,
assegurando que a fase mais chique da carreira em nada vai impedi-la de
cantar os palavrões tão fortemente enunciados na época de Gaiola das
Popozudas, principalmente em parceria com o amigo Mr. Catra: — Vou no
que a onda me leva. É claro que na TV não dá para cantar palavrão. E tem
algumas festas também em que me pedem para não falar. Aí no refrão eu
fico quieta e o público mesmo canta. Se tiver que fazer mais música de
palavrão com o Catra, vou fazer. Não virei santa.

O impulso para o topo, mas com os dois pés no chão, vêm não apenas
dos 200 pares de sapato. Dona Regina, mãe de Valesca, é a maior
incentivadora da funkeira.
— Sempre dei apoio. Estou orgulhosa do
momento, mas só espero que ela nunca perca a humildade — diz a dona de
casa, de 53 anos, mãe dos outros três irmãos de Valesca e avó coruja de
Pablo, de 14, filho da funkeira: — Somos uma família unida, faço tudo
por eles. Uma vez apareceu um irmão de Valesca (por parte de pai) na
Sapucaí. O cara só virou irmão depois que ela ficou famosa, pelo visto.
Viramos a cara mesmo.
Recentemente, Valesca se tornou uma
porta-voz importante do movimento feminista, principalmente depois de
postar uma foto nua em protesto contra o estupro. Ela diz que o tema a
mobiliza por histórias de amigas. Embora de maneira controversa, ela tem
sido comparada à escritora feminista Simone de Beauvoir. Mas a
ex-Gaiola garante que sua luta pela liberdade da mulher pouco tem a ver
com o existencialismo francês. Mais uma vez, traz à tona a influência da
mãe e da vida real entreouvida nas ruas.
— Não gostava da maneira
como meu padrasto (pai dos três irmãos) tratava minha mãe. Foi por isso
que saí de casa aos 14 anos. Até hoje recebo histórias de mulheres que
não aguentam mais o marido, que não conseguem trabalho. Por mais que
seja um furacão no palco, tenho um lado sensível, e me emociono muito —
conta Valesca, lembrando da história mais marcante de fã que já ouviu, e
que, curiosamente, não foi de uma mulher: — Foi de um gay de 17 anos. O
padrasto não aceitou. A mãe o colocou para fora sem dó nem piedade. Foi
viver na rua e a primeira opção que encontrou foi se prostituir.
Além
de assumir os compromissos com o funk e os novos públicos que vem
atingindo, Valesca vive, em suas palavras, um grande desafio: ser mãe de
um adolescente de 14 anos. Pablo, filho da funkeira com o ex e
empresário Leandro Pardal, tem a mesma idade que ela tinha quando saiu
de casa.
— Fui para a rua já sabendo o que é certo e o que é
errado. Outro dia ele falou que estava namorando e fiquei de cabelo em
pé. Agora está só pegando. Falo sobre tudo, e já dei um saco de
camisinha para ele — conta, desinibida.
Embora a mãe seja um
símbolo de liberdade, principalmente sexual, a vida de Pablo não é só
festa. O garoto, do 8º ano num colégio particular da Barra, fica de
castigo. Lembra do pior: quando ficou de recuperação no ano passado.
—
Ela me deixou sem ir para festa, sem sair. Mas ela é legal. Vamos no
cinema, jantar fora, e quando ela está de férias, viajamos. Fomos para
Orlando, Miami e Los Angeles — diz o adolescente, que não pretende
seguir os passos do funk trilhados pelo pai e pela mãe: — Quero
administrar empresa.
Esse é só um dos lados caretas da autora de
hits como “Solteira”, “My pussy é o poder”, “Beijinho no ombro” e muitos
outros de títulos impublicáveis. Solteira, afirma que a quantidade de
trabalho (cerca de quatro viagens por semana) estão tirando o apetite
sexual dela.
— Sou romântica, gosto do serviço completo. Nada
rapidinho, pela metade. Trabalho muito, fico cansada como qualquer um.
De que adianta fazer correndo? — brinca a Popozuda, tremendo o corpo e
fazendo barulhos engraçados numa tentativa de encenação de sexo.

Sem deslumbramento com a fama, algumas coisas mudaram na vida de
Valesca desde o início da carreira solo, há cerca de oito meses — além, é
claro, do cachê triplicado, que chega a R$ 60 mil. São oito quilos a
menos na balança (perda de massa muscular, explica a loura) e menos 20
centímetros de coxa. A vontade de reduzir medidas veio depois da
participação na “Fazenda”, quando foi vista por 84 dias na TV.
—
Cheguei a ter 79cm de perna. Hoje estou com 56cm. Gosto de ficar mais
magrinha, fico mais elegante. É tudo fase. Antes queria ver a calça
colando na perna sarada, me sentia gostosona. Agora prefiro os shorts
mais largos — declara Popozuda, que vai manter as próteses de silicone
no bumbum e nos seios, e trocou a musculação pela ginástica funcional.
Fumante
assumida, não pretende mexer no vício tão cedo. Mas um dos hábitos mais
recentes é a pilha de exercícios vocais e até mesmo nebulização, com
acompanhamento de fonoaudióloga, antes de cada show:
— A gente já abre mão de tanta coisa na vida. Vou levando (o cigarro) por enquanto.
Outra mudança radical foi o gosto pela moda. Valesca, que contratou
uma personal stylist porque odeia arrumar mala, é vista com frequência
nos eventos de passarela. O flerte com a sofisticação trouxe novos
popofãs. Um deles é o professor e tradutor Marcelo Bergallo, de 31 anos.
De casamento marcado em Paris no fim do mês com um empresário francês,
convidou a funkeira para a cerimônia.
— Gosto de tudo nela. Se
tivesse verba, traria Valesca para cantar nos salões franceses. Já estou
me candidatando para ser intérprete dela quando vier por aqui — aposta
Marcelo.
Debruçada sobre o popozão de Valesca há quase dois anos, a
mestranda de Comunicação e Sociologia da Universidade Federal
Fluminense, Mariana Gomes, deve defender sua dissertação, “My pussy é o
poder”, em dezembro deste ano. Popofã antes de qualquer coisa, elogia a
influência de Valesca no feminismo atual, e projeta que a funkeira deve
fazer parte do imaginário carioca por muitos anos.
— Eu acho
difícil que, consagrada desse jeito no cenário do funk carioca, Valesca
perca seu espaço. Mas se até Madonna e Lady Gaga tiveram que se
reinventar, ela também pode precisar em algum momento da carreira. Até
agora ela está cumprindo com o seu papel — sublinha a acadêmica.
Com essa comparação de fazer inveja a qualquer candidata a diva pop, Valesca fala para as “recalcadas de plantão”:
— Ainda existe um preconceito contra o funk, mas é uma minoria. Aceita que dói menos.
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