O batidão foi descendo, descendo, até chegar, hoje, ao chão dos melhores
endereços da cidade. O balanço do funk, trazido por uma nova geração de
MCs e grupos — bondes, para os iniciados — definitivamente saiu do
gueto
das favelas e arrebatou os redutos de uma classe média encantada
com esse perfil mais, digamos, bem comportado, de músicas e
coreografias. A apologia às drogas, às armas e ao tráfico parece estar
ficando no passado, pelo menos nas boates, clubes, festas de casamento e
bailes de debutante para os quais os artistas desse grupo
frequentemente são contratados. De sexo, ainda se fala muito. Mas, para
agradar à nova freguesia, vale até fazer versões “família” dos
proibidões e deixar a baixaria de lado. Entre carrões, roupas de grife e
sucessos em trilhas de novelas, eles estão mandando um papo reto para a
rapaziada da Zona Sul: o funk light é o ritmo do momento nas noites do
Rio.
Esse novo funk se apresenta em diferentes estilos: melody,
ostentação, pop ou coreografado. Fica fácil encaixar os artistas em seus
quadrados. Anitta e Naldo, expoentes dessa geração, são pop. As MCs
Brunninha e Sophie fazem melody. As Maravilhas, os Ousados e os Leleks
são bondes coreografados. E os MCs Menor do Chapa, Pocahontas e Britney
seguem a linha da ostentação. Embora alguns sejam menores de idade, este
segmento musical não é coisa de criança. Um MC iniciante pode ganhar
até R$ 30 mil por mês, fazendo 15 shows por fim de semana.
Sucesso virtual antes de ir ao palco
O
funk light permite acolher sons que dificilmente estariam num batidão à
moda antiga. Basta ver o trabalho do MC Daniel Saxofunk, que, como o
nome diz, faz funk com seu saxofone. E o diferente também é bem-vindo.
Dançarino do bonde Os Novinhos, Emerson Araújo de Oliveira, de 21 anos, o
Massara, é portador de Síndrome de Down e realizou um sonho ao ser
convidado para fazer parte do grupo.
— Eu ia aos shows e ficava olhando eles dançarem. Quando me convidaram, nem acreditei — conta o rapaz.
O
sucesso do gênero levou vários à telinha, em programas como “Caldeirão
do Huck”, “TV Xuxa” e, principalmente, “Esquenta”. A trilha sonora de
novelas também abriu espaço para o batidão light: “Salve Jorge” premiou
sete funks.
Sem falar que os novos funkeiros se tornaram
queridinhos de artistas consagrados. Preta Gil gravou com Anitta, e o
“Bonde do iô-iô”, de MC Gutty e as Maravilhas, arrancou elogios de
ninguém menos que Caetano Veloso. Entre os jogadores de futebol é
unanimidade. Fred, Neymar e Ronaldinho Gaúcho vivem comemorando gols com
as coreografias de bondes como Os Novinhos e Os Ousados.
Mas que
ninguém se engane, porque eles não precisam dos veículos tradicionais
para nascer, crescer e multiplicar a fama. Quase todos despontaram nas
redes sociais com vídeos caseiros — de orçamento zero e visualizações
contabilizada aos milhões, como o Bonde das Maravilhas, com mais de sete
milhões de acessos no Youtube — ganharam fãs, pisaram no palco e, aí
sim, a carreira deslanchou.
— Cantava desde pequena e me apaixonei
pelo melody. Minha família aceitou a escolha e não sofro discriminação —
diz Sophie Cruz Blajchman, a Dama Baladeira, de 18 anos, nascida de uma
família judia e criada em Copacabana.
Sophie ainda não gravou CD,
embora tenha uma agenda repleta de shows — na sexta passada, por
exemplo, estava com uma apresentação marcada para o tradicional Clube
Israelita Brasileiro (CIB), em Copacabana. A princesinha do funk, a MC
Brunninha, de 19 anos, também faz mais shows no asfalto do que em
comunidades. Bares, boates e casas noturnas estão sempre no roteiro da
jovem moradora de Tomás Coelho, que descobriu um outro filão: os bailes
de debutantes. O visual patricinha da moça combina bem com as festas de
15 anos e, graças a essa sintonia, ela arrematou uma legião de fãs
adolescentes.
— No meio do funk, tem espaço para todos os gêneros,
mas a minha praia é o melody — afirma Brunninha, que faz mais de 50
bailes de debutantes por ano.
Esse sopro de inovação também ajudou
a dar fôlego às agendas de artistas da primeira geração do melody, como
Buchecha e MC Andinho. Tratados como ícones pela garotada, eles
voltaram a surfar na onda do funk light. Andinho é o rei dos casamentos e
Buchecha emplacou o sucesso “Hot dog”, em “Salve Jorge”.
— Esses
jovens estão recuperando o lado bacana do funk. Agora, até crianças
podem escutar as músicas e fazer as coreografias. Fico muito orgulhoso
de ter sido um pioneiro — conta Andinho.
Buchecha, sucesso nos anos 90, quando fazia dupla com Claudinho, também é só orgulho:
—
Era uma época em que o melody estourava nos Estados Unidos e eu
consegui popularizar o estilo no Brasil. É bacana ver a nova geração
perpetuando isso.
Para o DJ Marlboro, depois da Zona Sul, o funk tem tudo para bater asas e voar rumo a destinos mais distantes:
—
O funk está ganhando respeito no momento em que Rio se torna o centro
das atenções de todo o mundo. É uma tendência natural que o ritmo ganhe
condições de fazer sucesso no exterior, com a publicidade que teremos
graças à Copa do Mundo. Então, será a hora de os artistas se
profissionalizarem, mantendo a criatividade musical, mas investindo em
qualidade.
No ritmo
Melody:
Esse
estilo de funk prima pela pegada mais romântica e faz o maior sucesso
entre o público feminino. Brunninha, por exemplo, agregou as baladas ao
repertório.
Ostentação:
As letras exaltam os bens de consumo. Carrões, acessórios e roupas de grife recheiam as canções. É o funk de quem subiu na vida.
POP:
Esse ritmo flerta com o rock e o pop tradicional. Tem melodias bem dançantes.
Coreografado:
Os grupos se apresentam com coreografias e costumam fazer batalhas de passinhos e solos improvisados.
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