Buchecha lembra os 40 anos do funk: ‘Éramos mais felizes’

“Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”. O “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca, ultrapassou gerações e é tido como o hino do batidão, que chega aos 40 anos com muito estilo e cheio de história pra contar.
Como a do próprio funk de Cidinho e Doca. Quem lembra é Buchecha:
— Esse refrão é tudo. É de uma época onde os MCs falavam mais de amor e protestos contra a corrupção política ou social! Curtia muito aquela vibe. Acho que o melhor naquela época era a inocência de todos nós, pois não tínhamos noção do quanto "barulho" já fazíamos e nem a longitude do eco dos nossos refrões e cânticos, então todos agíamos sem estrelismos ou rixas, éramos mais felizes — conta o cantor, que começou a carreira na década de 90 ao lado do amigo Claudinho, morto num acidente de carro.
Já MC Marcinho explica que a felicidade pedida na música era vista nos gritos da massa funkeira nos bailes:
— As pessoas faziam coreografias, trenzinho e festival de galera. Os funks tinham letras mais trabalhadas e as equipes tocavam ao vivo, com discos de vinil. Não era gravado.
Isso mostra que desde o início do funk, há 40 anos, a mensagem do “Rap da felicidade” tava lá: a galera só queria ser feliz. Só mudou na verdade, o modo como cada um decidiu fazer isso. Além da letra, que passou por “Mandamento black”, de Gerson King Combo, o “Melô da mulher feia”, e chegou a “Adultério”, de Mr. Catra, o que marcava também era o modo de se vestir.
— A galera no baile usava roupas largas, cabelão e foi se construindo uma tribo — diz o produtor cultural do movimento black Dom Filó.
Na década de 70, era o cabelão black power, as músicas lentas e os discos de vinil. Do soul, misturado com o hip-hop e outros ritmos nasceu o funk. E aí veio o “mulher feia, cheira mal como urubu”, lançado pelo DJ Marlboro no Funk Brasil.
— O funk mudou e conseguiu respeito — destaca Yuri, de “Os Hawaianos”. Mas nem tanto quanto o criador do funk nacional, DJ Marlboro gostaria:
— Só precisamos um pouco mais de reconhecimento por parte das autoridades.
Nestas quatro décadas, o estilo saiu da comunidade, se espalhou e chegou ao horário nobre da telinha com MC Koringa. A história do ritmo é contada no musical “Funk Brasil – 40 Anos de Baile”, que volta a ser apresentado em março.
— A peça mostra como o funk faz parte da nossa vida — explica o autor e produtor da peça João Bernardo Caldeira.
1970
A década foi marcada pelo disc-jockey Big Boy, radialista e DJ do baile da pesada ele misturava a música negra (o soul) com rock pop (como Beatles). Na mesma época, surgiram Mr. Funk Santos e Dom Filó. Marcão da Cash Box também estava lá. Ele tocava músicas mais lentas (discoteca) e funks americanos. Outra equipe de som da época era a Furacão 2000, com Rômulo Costa, que ajudou a popularizar o funk. Já Gerson King Combo, chega por volta de 77 com estilo “James Brown”, fazendo sucessos como “Eu te amo brother” e “Mandamento black”, músicas que marcaram o soul, o ritmo que inspirou o funk mais tarde.
1980
Ano que mudou a história do funk nacional. DJ Marlboro foi o o primeiro a ganhar o Campeonato Brasileiro de DJs, em 1989. Também deu o pontapé no funk nacional com a “Melô da mulher feia”, na coletânea “Funk Brasil”.
1990
Latino começou sua carreira cantando funk melody, chegando a vender mais de 600 mil cópias no disco “Marcas de amor”. Quem não lembra de “Me leva” e “Só você”? Anos depois vieram os amigos de infância Claudinho e Bucheca que ficaram famosos no Brasil com a música “Conquista”, que colocou os dois como cantores pop. Claudinho morreu em 2002 num acidente de carro.
2000
Tati Quebra-barraco chega arrebentando e pela primeira vez a mulher fala da realidade dela. Seu estilo abriu as portas para outras como, por exemplo, as mulheres frutas. Outro estilo que reapereceu nesta época foi dos passinhos. “Os Hawaianos” estouraram com “Passinho do bonequinho” e a dancinha que fazia tanto sucesso nos anos 90. Na mesma época, teve também “Os magrinhos”, “Os ousados” e “Gaiola das Popozudas”. Já Mr. Catra começou sua carreira com músicas sobre a realidade da favela. Depois, Catra passou a fazer uma letra com apelo sexual de forma bem humorada, como em “Adultério”.
2010
Entre tantos MCs atuais que surgem, MC Koringa se destaca por ser o funkeiro que emplacou seis músicas em novelas. Entre elas “Pra me provocar”, em “Avenida Brasil” e “Dança sensual”, de “Salve Jorge”.

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